sábado, 31 de julho de 2010

Por uma boa causa

Fazendo como que uma ligação ao post anterior, em que fica provada a pouca ou nenhuma possibilidade de remediar a maior parte dos tumores, nos diversos órgãos do corpo humano, quando eles se manifestam, gostaria de afirmar que em vários casos de cancro, e que são dos que afectam uma grande parte da população, nomeadamente o da mama e o da próstata, uma regular observação das zonas em causa pode, em muitos casos evitar a morte.
Neste caso está também o cancro nos testículos, não tão comum como os referidos, mas mesmo assim bastante disseminado na população masculina.
Para o prevenir, houve recentemente uma campanha publicitária no Reino Unido, à qual deram a colaboração várias personalidades conhecidas do grande público; aqui ficam os exemplos:

E para finalizar, um vídeo explicativo.


sexta-feira, 30 de julho de 2010

António Feio

Era esperado, mas custa sempre quando chega o momento.
O mundo do espectáculo, principalmente a televisão e o teatro estão de luto.
Obrigado por tanto que nos deste...

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Desporto "fora do armário"

O amigo Ovelha Tresmalhada publicou há dias um excelente post acerca da “saído do armário” do famoso atleta de rugby galês Gareth Thomas. Foi talvez até ao momento o desportista que assumiu a sua homossexualidade, com maior impacto, devido a praticar um desporto viril e de características marcadamente masculinas, mas também pelo tipo de pessoa que é: reservado, adulto e nada espalhafatoso, muito comedido.
Claro que houve , antes, diversos atletas de variadas actividades, que tiveram a mesma coragem de Gareth Thomas; e este post é uma homenagem a todos el@s, mas deixo no ar uma pergunta: quantos homene e mulheres, uns mais conhecidos que outros, e que praticam desporto não são homossexuais ou lésbicos? Como se sabe, cerca de 10% da população mundial pertence ao mundo GLBT e porque há tão poucos a admitir as suas orientações homossexuais? Geralmente por medo. E foi mesmo esse  medo que levou ao suicídio do único futebolista, com certo renome a não aguentar a pressão de ter mostrado ao mundo que era homossexual:  Justin  Fashanu.
Estou certo que depois de G.Thomas outros surgirão, como sucedeu com alguns atletas olímpicos, mas de pouca nomeada.
Aproveito para deixar aqui os links de uma excelente reportagem sobre este assunto, que o amigo Mike me enviou, que apenas pecam pela sua duração:
"Inside Sport - A Look At Gay Sportsmen Around the World"
Parte 1 -
http://www.youtube.com/watch?v=wjU2FeU_3qI
Parte 2 - http://www.youtube.com/watch?v=vDYOPXyXEaQ
Parte 3 -  http://www.youtube.com/watch?v=w9QDiASNfc8
Seguem as fotos de alguns dos mais conhecidos desportistas que tiveram a coragem de se assumir como homossexuais ou lésbicas.
A primeira desportista a assumir-se e uma lenda do ténis mundial - Billie Jean King

John Amaeshi, basquetebolista norte americano.
Greg Louganis, o famoso nadador norte americano
Justin Fashanu, futebolista inglês, que se suicidou após ter-se assumido como homossexual.
Martina Navratilova, uma das melhores tenistas de sempre.
Donal Óg Cusack, atleta irlandês de uma modalidade pouco conhecida entre nós - o hurling.
Amelie Mauresmo, tenista francesa, ainda hoje em actividade e muito bem colocada no ATP.
Mathew Mitchum, o saltador para a água australiano, medalha de ouro nos JO de Pequim.
Gareth Thomas, galês, um dos melhores jogadores do rugby mundial.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

" O Orgulho"


É este o título de um post que me foi recomendado (em boa hora) pela minha amiga Sairaf, e que foi escrito pelo autor do blog  O ALFAIATE  LISBOETA, tendo pedido por mail ao seu autor permissão para o transcrever aqui no meu blog, o que ele amavelmente aceitou e que mais uma vez agradeço.
Penso que um texto destes faz mais pelo combate à homofobia do que muitas acções previamente preparadas para esse fim; são testemunhos destes que precisamos para combater preconceitos e derrubar ideias perfeitamente aberrantes acerca da vida dos homossexuais e lésbicas.
Claro que o autor teve alguns comentários pouco agradáveis, como se esperaria, pese embora, houvesse mais aceitação que repúdio.
Aqui vai, com o devido respeito, o texto:


"nunca vi tantos paneleiros na minha vida". Foi assim que começou a minha passagem pela parada gay. Foi no táxi que apanhei no aeroporto que soube do evento. Pelo motorista, um madrileno de 25 anos que antes de andar nas rondas trabalhou 5 anos nas obras. Com base no meu senso-comum repleto de presunções sociológicas diria que dificilmente um português com a mesma trajectória falaria daquele evento num jeito tão natural. Sem um único travo de crítica ou escárnio. Falámos da parada da mesma forma que percorremos os caminhos das nossas selecções na África do Sul ou que trocámos números sobre a taxa de desemprego de cada um dos nossos países. Fui a Madrid visitar um amigo e curiosamente foi ele (que não é propriamente o maisgay friendly dos meus amigos) quem sugeriu que passássemos pela parada. E foi já no meio da festa que repeti com surpresa sincera "foda-se, nunca vi tantos paneleiros na minha vida". "paneleiro" é um termo feio. Primeiro na sua fónica e depois no seu sentido. Tanto assim é que o emprego mais vezes para falar de tipos que não me merecem o respeito que propriamente de tipos que se deitam com outros tipos. Mas não é sobre palavras ou glossários pessoais que me apetece falar. Até porque não planeio fazer nenhum mea culpa por não empregar os vocábulos mais precisos ou diplomaticamente correctos. É sobre a diferença, e sobre a forma como a olhamos. Parece reinar uma obsessão de identificar tudo o que se destaca daquilo que temos por regra. E de aplicar uma censura social em torno dela. Mais que uma lei ou uma proibição, a censura sobre o que quer que não ande alinhado com uma dada consciência colectiva pode ser a forma mais cruel de julgar alguém. Enquanto corríamos os inúmeros autocarros que compunham a parada ia reparando na quantidade de homens musculados, de traços viris e aparência masculina que iam revolucionando q.b. a minha visão pré-definida, limitada e um tanto ou quanto arcaica daquela que é ou deixa de ser a imagem de um gay. Não vos vou dizer que me é completamente indiferente ter ao lado um bodybuilder a olhar-me de alto abaixo como se eu fosse o seu brinquedo sexual predilecto para aquela noite mas a verdade é que não estou em condições de vos garantir que, nunca na vida, lancei olhar idêntico a uma miúda bem feita e, entre uma atitude e outra, não vejo porque raio a do matulão madrileno haverá de ser mais censurável que a minha.

Não nasci ensinado a lidar com a diferença. Devia ter uns 12 ou 13 anos quando numa manhã ia a passar junto à secretaria da minha escola. Na fila estava o único rapaz do liceu que nunca se deu ao trabalho de negar que simpatizava com moços bonitos. Lembro-me tão bem… Passei e comentei alto "as bichas na bicha". E fi-lo com a sensação que estava a proclamar o trocadilho mais sofisticado à face da terra. Acendeu-se um rastilho de esgares e risadas em torno do miúdo que já parecia lidar com colegas estúpidos como eu como se de uma inevitabilidade nos tratássemos. Não foi há muito tempo que me cruzei com ele de novo. Faltou-me coragem para o abordar e pedir desculpa por qualquer mau bocado que a minha brejeirice lhe tivesse infligido um dia mas, em verdade vos digo, sinto-me em falta com ele. A censura social consegue ser, muitas vezes, mais castradora que qualquer lei. Tenho a certeza que o número de aceleras que se gaba de fazer parte do percurso entre Lisboa e Porto ao dobro do permitido por lei vai diminuir brutalmente, não no dia em que as penas se agravaram, mas na hora em que sentirem que o indicador do seu velocímetro não merece mais a aprovação daqueles que os rodeiam. E parte do problema da intolerância sexual reside precisamente no facto de, em muitos meios tidos como sofisticados, se cultivar uma certa homofobia. Reside no aparente orgulho que parece existir entre aqueles que rejeitam qualquer diferença relativa à sua própria condição. Chego a ficar com a sensação que a homofobia é para muitos homens, uma forma de afirmação da sua própria virilidade, como se a rejeição de uma orientação sexual diferente da sua lhes assegurasse, simultaneamente, níveis olímpicos de testosterona e o reconhecimento da sua masculinidade pelos seus pares.

Para uma criança o sentimento de marginalidade é provavelmente o cenário mais aterrador que se lhe poderá desenhar. Num ambiente homofóbico, qualquer adolescente que sinta atracção física por alguém com quem partilhe o balneário arriscar-se-á a sentir isolado num mundo que não lhe parecerá ter sido desenhado à sua medida. Arriscar-se-á a sentir que, ele mesmo, não tem lugar na concepção de condição humana que lhe transmitiram e que ele próprio assimilou. É assim que imagino uma miúda que se dê conta que o seu ser a impele para uma referência corporal feminina ao invés das idealizações masculinas que o mundo em que ela se inscreve lhe impinge. E este direito, o de projectarmos os ímpetos sexuais que nos impelem sobre o género que bem entendermos deveria ser um direito inalienável, tal qual… (repito, tal qual) o direito à declaração pública dos nossos afectos. E sinceramente, dispenso grandes erudições ou reflexões académicas sobre a matéria. A resposta está no mundo físico, tangível e acessível a todos. Porque a minha orientação sexual se exprime através de uma coisa muito simples – a minha pila. Porque nem o mais bem-falante behaviorista me conseguiria convencer de que a minha sexualidade não acabaria sempre por ser comandada por ela. Porque ela nunca me deu a escolher sobre os critérios que determinam a sua erecção. Porque ela não me perguntou nunca se eu queria ou não sentir tesão por mulheres. Não escolhi gostar de peles sedosas, braços delicados ou contornos femininos. Não escolhi, na minha infância, ter amores platónicos pelas minhas primas mais velhas, sentir-me atraído por amigas mais novas lá de casa ou, já na adolescência, ter tido sonhos molhados com a filha de uns amigos de uns amigos com quem me cruzei numa festa. Não escolhi ser muito ou pouco normal aos olhos dos outros. Não escolhi gostar de mulheres. Como também não vou poder escolher pelo meu filho. Não vos vou mentir. O ideal tipo para a minha descendência não passa por ter um filho gay. Agrada-me pensar que o meu filho saia com metade das miúdas de Lisboa e tenha a outra metade a suspirar por ele. Que seja respeitado entre o seu grupo de pares, que prefira apanhar umas chapadas a virar as costas a um puto que o insulte; que seja inteligente, bonito, dotado de sentido de humor e, já agora, que não seja o puto que, invariavelmente, passa o jogo inteiro à baliza. Eu tenho direito a traçar os ideais tipo que bem entender para o meu filho. O que não me permito é amá-lo menos se ele não for nada do que eu tiver idealizado. Se for o miúdo a quem roubam recorrentemente o lanche no recreio, a quem ordenam que passe o jogo inteiro na baliza ou aquele que venha um dia a gostar de rapazes.

A parada é um fenómeno impressionante. E estava realmente impressionado com a quantidade de (supostos) “paneleiros” que estava a ver naquele dia. Vi dezenas de autocarros numa avenida que desistimos de percorrer ainda a meio. Pedi autorização para subir àquele cujo visual me agradou mais e tirei meia dúzia de fotos indiscriminadamente. E foi neste autocarro que nasceu estepost. E ainda bem que o escrevi. Porque se o fiz foi porque aquilo que me faz sentido neste blog é escrever sobre o que cada um dos meus retratos me diz, sobre o que cada um destes retratos me lembra e sobre cada um dos sítios para onde estes retratos me transportam. Porque, na verdade, o orgulho que dá o nome a estepost não é necessariamente o orgulho gay. É também o orgulho que tenho em ter escrito este post. Porque se deixar os meus amigos homofóbicos a fazer contas de cabeça é sinal que já valeu bem a pena tê-lo escrito. Porque se não tivesse tido coragem para o ter escrito aí sim… Independentemente dos meus apetites e voracidades sexuais… Se qualquer receio me tivesse impedido de escrever este post… Aí sim, aí seria um grandessíssimo paneleiro

sábado, 24 de julho de 2010

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Passado e presente 16 - Covilhã, a minha cidade

Covilhã, cidade neve, cidade tear, cidade serra, cidade universidade, cidade de altos e baixos, mas sempre a minha cidade.

Lá nasci, por lá me criei e de lá "emigrei", porque a interioridade há anos atràs, era bem maior que actualmente.

Mas voltei sempre, as raízes estão lá, a família também; os amigos, esses "emigraram" também.

Enquanto lá vivi, até aos 16 anos, era o meu mundo e o outro mundo ainda não tinha chegado bem até mim. Durante os meus estudos, eram as férias, ainda eram os amigos e a família estava completa, era muito bom.

O exílio prolongou-se durante muitos anos, de 1962 a 1980, com a tropa a "ajudar"...

E, no principio de 80, eis que regresso, dando resposta aos anseios paternos de ajuda na empresa familiar.

Dá-se então algo surpreendente, ao verificar que aquela cidade, no seu dia a dia era totalmente diferente da Covilhã da minha infância e juventude. As pessoas eram outras, o 25 de Abril tinha deixado marcas numa cidade muito estratificada socialmente.

Poucas eram as pessoas que conhecia, pois como por "magia", tinham-se eclipsado algumas, muitas, pessoas com quem antes me relacionava; não estavam desaparecidos, estavam "hibernados", soube-o de uma forma fortuita, quando no funeral de alguém conhecido, de repente apareceram todos, ou quase.

Os viveres eram outros, e eu adaptei-me, até porque eu próprio estava muito diferente.

A minha cidade, pese embora o crónico pensar retrógrado do interior do nosso Portugal, estava diferente, e eu era um estranho, não me conheciam... E pude descobrir algumas ousadias daquelas gentes, que geralmente só são mostradas a quem "é de fora".

Mas eu fui ficando e com a rotina da presença, vieram os normais recuos. Mas nunca deixei de ser eu e durante os 14 anos que ali vivi, desde o meu regresso, multipliquei-me em todas as direcções: empresário têxtil,, professor, dirigente desportivo, cineclubista, e até, pasmece-se, cheguei a ser candidato autárquico, pela mão do "Zé" (...), sim, esse que estão a pensar!

E voltei a conhecer toda a gente e a sentir-me de novo na minha cidade.

O problema é que a vida dá muitas voltas e eu "emigrei" de novo, desta vez, penso que definitivamente, para a Lisboa dos meus tempos do ISCEF, e onde aprendi de uma forma muito autodidacta a gostar de tanta coisa, e a defenir-me completamente como sou.

Com orgulho digo, que nunca deixei de ser esse "todo" em que me constituo, mesmo lá, na minha cidade. E nunca ouvi uma critica, sempre fui visto da mesma forma.

Hoje, volto cada ano pelo Natal, que já não é o que era antes, é claro, e de vez em quando a visitar a minha Mãe.

A Covilhã mudou de vez. Os lanifícios morreram, ou estão a morrer, a universidade abriu a cidade ao mundo, o crescimento estendeu-se cá para baixo, para a planície, deixou de subir serra acima.

É actualmente uma cidade moderna, com vida própria e até com alguns motivos de orgulho, como um curso de medecina, instalado a meias entre a Universidade e um hospital, que recentemente foi considerado o 4º. melhor do país (público).

A Covilhã será para sempre, a minha cidade!


(foto - fachada da Igreja de Santa Maria Maior)


Este post foi publicado originalmente na parte desaparecida do meu blog a 12 de Dezembro de 2006.


terça-feira, 20 de julho de 2010

I Am Who I Am

A música é bela, o cantor - Lee Ryan - belíssimo, e a letra é algo que eu não preciso de explicar, porque sou assim todos os dias, em todas as ocasiões.
Se assim não fosse, não seria eu!
No I don't mind if you think I should grow my hair
And no I don't mind if you pick on the clothes that I
wear
But know I can keep my head when all around me are
losing theirs because

I am who I am
And you can't change me
I've done what I can
And I'll stand my ground
You're tying my hands
You rearrange me
It all falls down
It all falls down

Why when you dream do you see me as something I'm not
Why don't you wake up and see all the good things
you've got

A heart isn't made out of clay
Not something you shape with your hands understand

Is the reason you ask me to change so that you stay
the same

Well I'm sorry if I keep disappointing you again and
again but

I am who I am

domingo, 18 de julho de 2010

Pegadas negras

“Quinze dias sem telejornais, quinze dias sem net, quinze dias sem telefones. Sul de Espanha e tantas cores a invadirem-me o olhar que por vezes doía; no mar, mais azuis que cores, uma ou várias serras a acabarem ali, onde nadei, como sempre, até esquecer todas as lutas, todos os sons que não os das minhas braçadas ou o do vento a amparar cada uma delas, ou o do vento na areia branca, sem saber por muitos desses quinze dias da importância da cor da areia, esse branco imaculado, esquecido ele também, aparentemente, de lutas, ou mesmo de lutos.
Estava sentada a olhar a eternidade do mar, que desde miúda me oferece paz às pálpebras, quando o meu amigo, que identifico por Z., deu um grito de horror e fez-me olhar para a esquerda.
Num minuto que ficou gravado para sempre nos caminhos da minha memória, vimos o cenário de todos os dias alterado por uma sucessão de crimes cunhados pelo ódio a um ser humano – e ao que ele representava –, que cruzava a areia, todos os dias, com pegadas pretas.
Naquela praia, como em tantas, sem licença administrativa, raparigas e rapazes de várias nacionalidades vendiam fatos de banho, sumos naturais, tudo entre sorrisos e nada lhes acontecia. A autoridade administrativa fechava os olhos aos episódios, porque dá vida à vida dos turistas uma brasileira, por exemplo, se branca, entreter o cenário com os seus produtos exóticos.
Acontece que um dos vendedores era senegalês – chamo-lhe de R., com a sua autorização – vendia, e vende, óculos e música, e num ápice vimos a monstruosa evidência de as suas pegadas na areia serem tidas como sombras sujas, pretas, havia que acabar com elas e com violência.
Um homem que vigiava as praias, equivalente no seu ofício a uma autoridade da ASAE, gritou com o senegalês – apenas com este, claro – e disse-lhe que teria de parar de vender na praia. O R. pediu, num segundo, autorização para pousar as suas coisas, não oferecendo qualquer resistência, o que na verdade seria absurdo de imaginar, já que só estava em causa uma contra-ordenação, punível com uma coima, assim, só isto, por mais irritante que fosse recair apenas sobre as suas pegadas a aplicação da lei. Pegadas pretas.
Para nosso horror, o agente sacou do bastão e algemou o R, num acto de violência absolutamente inexplicável, agredindo-o perante os presentes.
O pior estava para acontecer. Um cidadão alemão, que naturalmente representa-se a si próprio, alto, forte, viu a cena, um senegalês algemado, e levantou-se da sua toalha saltando sobre o sacana do preto, porque sim, porque lhe deu um ataque, porque viu ali uma boa oportunidade para exorcizar o seu racismo primário. Nunca, em toda a minha vida, presenciei algo de semelhante.
Para que se perceba, tudo isto se passou em tempo concentrado, não sei dizer dos minutos.
Toda a gente se levantou numa gritaria, mas a única pessoa com coragem física foi o meu amigo Z., que exerceu o que em direito se chama legítima defesa de terceiros, atirando-se, sem pensar em consequências, para cima do alemão, com todas as suas forças, até o afastar do R.
Constitui-me, de imediato, advogada do R. Em meu redor, gritos, protestos, mulheres explicando que nunca tinham presenciado nada de semelhante, ouvia-se “racista”, “porco”, “nazi”, “atenção às crianças”, “tirem as algemas ao preto”.
O R., um senegalês estudante de medicina, de 22 anos, que vem à nossa Europa no Verão ganhar o que pode para concluir os estudos, tinha os olhos afogados em lágrimas, estava perdido de pânico e tentava, no início, incentivado pela gritaria, soltar-se das algemas. Perguntava num gemido se seria preso, se tinha cometido um crime, se sim, qual. Consegui, com algum esforço físico e apanhando uma chapada perdida, agarrar-lhe a face e implorar-lhe que ignorasse tudo o que se passava em redor, falando com ele em francês, para fúria do agente administrativo. Pedi-lhe que me olhasse nos olhos, repeti várias vezes que era advogada, que ele não tinha cometido crime algum, que tinha sido vítima de um abuso de poder inqualificável, mas que se mantivesse calmo, sem um gesto, que não desse um argumento ao agente, o qual estava sequioso por uma agressão para invocar legítima defesa. Prometi-lhe que não sairia de perto dele até ser libertado, pedi-lhe que confiasse em mim e que ignorasse toda e qualquer provocação, porque tudo o que se estava a passar tinha sido devidamente testemunhado e a cada segundo que passava a situação agravava-se para o agente e não para ele.
O R. deu-me a mão livre, respirou fundo, tendo a outra algemada ao agente, manteve-se calmo e deixou-me falar.
Estrategicamente expliquei ao ser que vestia uma farda de autoridade que às vezes naquela profissão geram-se momentos difíceis, mas que todos tínhamos testemunhado que não houvera resistência alguma, pelo que o uso do bastão e das algemas, apenas permitido em caso de agressão, tinha sido ilegítimo, que a observância do princípio da proporcionalidade a que estava adstrito estava totalmente comprometida, pelo que lhe requeria, com educação, que soltasse o R.
O racismo do agente administrativo virou-se então para a minha pessoa, chamando-me de advogada "portuguesa", que embora replicasse ser cidadã europeia, podia falar, falar e falar, e até conhecer a lei espanhola, mas que ele não tiraria as algemas ao preto e eu até podia ir para a cama com ele, que era o que eu faria de melhor.
Mantive a calma, pedindo ao Z. que resistisse à tentativa de nos fazer perder a cabeça, e comuniquei ao agente, num esforço doentio para conter a minha vontade de o agredir, que o dito seria objecto de denúncia à parte, mas que naquele momento estava concentrada no meu constituinte.
Decidi então acompanhar o R até à polícia, dando-lhe o meu braço ao seu braço livre, para compensar a sensação de horror criada pelas algemas postas no outro pulso já dilacerado. Pegadas pretas.
Os gritos eram muitos, muitos, tantos, como sempre, a indignação generalizada, mas quando pedi testemunhas debaixo de um sol castigador, prontas para uma caminhada com quarenta graus por pegada, uma mulher apenas veio comigo e com o Z. até ao fim.
Durante a caminhada senti os meus pés perderem a pele, esqueci-me, no meio da confusão, dos sapatos, mas logo um outro senegalês atirou para frente de mim, num gesto elegante e discreto, um par de sandálias para que eu continuasse a andar com dignidade.
Chegados à polícia, tudo foi relatado, e a conivência de um dos três polícias com o agente administrativo caiu por terra quando denunciei o mesmo pelo que me dissera.
Poupando aqui a descrição dos trâmites legais, realço a ajuda maravilhosa da espanhola que nos acompanhou, seguindo o R para o hospital para tratar do pulso. Foi portanto libertado.
Voltei à praia branca e finalmente chorei. Aquelas horas de contenção pareciam moinhos nos novos passos de regresso a uma toalha esquecida e o meu corpo todo ele um soluço.
Foi então que dei conta de que no caminho para a minha toalha, que sempre escolhe as zonas desertas das praias, há bares bem frequentados, com empregados de múltiplas nacionalidades, mas todos eles brancos.
Tremi o resto do dia.
No dia seguinte apareceu o R. e os seus irmãos. Ao todo, três. Queriam pagar-me honorários, como podiam, com uns óculos escuros. Expliquei ao estudante de medicina que fizera o equivalente ao que um médico tem obrigação de fazer se se depara com alguém doente sem assistência.
Guardo para a minha memória a conversa que se animou, de uma família que conhecia o bairro dos Anjos, em Lisboa, surpreendida por eu conhecer o Senegal e assim falarmos recostados no sabor do dia seguinte das terras de uns e dos outros.
Durante a conversa, esta pergunta:
- Aquilo que a senhora disse é verdade? Eu posso apresentar queixa contra o agente?
Disfarcei a minha angústia ao responder que sim e que contra o alemão também.
- Posso apresentar queixa, eu?
- Posso apresentar queixa, eu?
Aqui está a tua história, R., contada, como te disse que faria, com a tua autorização, e fica por expressar o que não consigo pôr em palavras, o teu olhar maior do que a travessia que fazes todos os anos, e a tua enorme superioridade, ao dizeres que a vida nos devolve o que fazemos, em paz, e de novo a lutar, e certo, como dizias, de que se algum dia aquele alemão te aparecer por destino nas tuas mãos de médico o tratarás com o melhor da tua arte; eis uma lição que deste a tanta gente nas tuas pegadas pretas que continuarão em frente e para cima, numa Europa onde isto é possível, onde isto aconteceu, onde as tuas pegadas ainda têm cor.”

É a segunda vez em pouco tempo que aqui deixo palavras escritas pela mesma pessoa, co-autora de um blog que muito aprecio – Jugular.
A culpa não é minha; é da autora, a Isabel Moreira, que aqui cumprimento e a quem deixo uma palavra de muita admiração.
Obrigado e que sirva de exemplo esta partilha.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Uma referência...

Vai  fazer dentro de meses, quatro anos que estou na blogosfera e tenho cnhecido muitos blogs; uns já desapareceram, outros estão “ligados à máquina”, e outros continuam com periodicidade variável, a cumprir os objectivos, isto é, as orientações de quem os escreve.
Sempre que um blog vai para a minha coluna da esquerda, vai por mérito próprio e não pelos lindos olhos de quem o escreve ou porque é moda segui-lo; nem todos são iguais, pois todos têm características próprias; lei-os todos com atenção e lá vou comentando, quando vejo razão para isso…
Não é a primeira vez que aqui neste meu canto, chamo a atenção de quem me lê para um determinado blog, embora seja raro; e sempre que o faço é por razões muito positivas e tem acontecido de formas variadas: ou apenas chamar a atenção para o blog “x”, ou dar um link de uma postagem, ou até mesmo reproduzir na íntegra uma entrada, que por ser de muito interesse, faço partilhar. E claro há aquelas muitas vezes que se põe uma foto, uma frase ou um vídeo que se “roubou” a um blog, mas com a identificação do respectivo blog.
Hoje vou chamar a atenção para mais um blog, que conheço há muito, que é SEMPRE excelente, onde muita coisa tenho aprendido e que pertence a uma pessoa a quem já me ligam laços de uma Amizade, grande, progressiva e reciproca.
E vou chamar a atenção, baseado no seu último post, que aliás segue a regra de um encadeamento perfeito da exposição , intervelada com vídeos perfeitamente adequados e que não faço ideia como são encontrados. Nessa postagem, o autor apresenta um dos mais ricos retratos de um famoso músico e comediante, Victor Borge, e depois, faz a ligação a um duo fabuloso que se apresentou na passada semana em Espinho.
É deste duo, o vídeo que aqui mostro e peço que corram (quem não conheça) a ver a postagem aqui inserta, pois não darão o tempo por mal empregue.
O blog é o IN-SENSO, e o seu autor o meu querido amigo Com senso, a quem envio um grande abraço.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

волим те сваки пут све више ! *

O que se passa comigo?
O que se passa connosco?
Não sei bem explicar... apenas sei que vai num crescendo!
Tão ausente e cada vez mais presente...
Where the boys are, someone waits for me
A smilin' face, a warm embrace, two arms to hold me tenderly

Where the boys are, my true love will be
He's walkin' down some street in town and I know he's lookin' there for me

In the crowd of a million people I'll find my valentine
And then I'll climb to the highest steeple and tell the world he's mine

Till he holds me I'll wait impatiently
Where the boys are, where the boys are
Where the boys are, someone waits for me

Till he holds me I'll wait impatiently
Where the boys are, where the boys are
Where the boys are, someone waits for me

* Amo-te cada vez mais!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

"An Englishman in New York"

Este filme é a continuação de “A naked civil servant” (1975), filme que é baseado na história real do escritor Quentin Crisp, ícone gay da segunda metade do século XX. Ele escreveu um livro de memórias em 1968, contando o que significava, nos Anos 30, ser gay em Londres e sair - como ele saía - maquilhado às ruas. Ele não saía vestido de mulher. Não. Saía vestido com roupas de homem (ainda que um tanto extravagantes) e maquilhado. Assim se apresentou até o final da sua vida.
Mesmo com todas as lutas que enfrentou, e as decorrentes agressões físicas e morais, Crisp atingiu a fama pela sua visão da homossexualidade; pelo seu exibicionismo e inconformismo.
Trata-se de um filme com mais peso e foco no que Quantin Crisp se tornou para o mundo depois de sua adolescência difícil e dos problemas que enfrentou até escrever sua biografia em 1968.
“An Englishman in New York” (2009) é dirigido por Richard Laxton, outro veterano da TV que, diferente de Jack Gold (realizador do primeiro filme) , não arriscou uma linguagem poética, mas manteve o recurso da narração como um elo entre os dois filmes.
John Hurt está ainda melhor do que no filme anterior. Talvez isso seja a coisa mais interessante deste projecto: ele voltou a interpretar o mesmo papel 34 anos depois e está magnífico. Se antes a sua fisionomia era uma cópia autenticada de Crisp, aqui essa característica eleva-se ainda mais ao assistir ao envelhecimento da seu personagem, numa transformação assustadora.
O filme explica o que aconteceu com Crisp depois da exibição de “A naked civil servant” na tv com cabo inglesa. O sucesso do filme elevou ainda mais as vendas de sua biografia e revelou de vez ao mundo este homem inglês de fino trato feminino. Como resultado, Crisp fez sucesso nos EUA e recebe um convite para uma palestra sobre sua vida, no começo dos anos oitenta. Ele aceita, muda-se para Nova York e começa então a segunda etapa de sua vida, cheia de tributos e desgraças.
O trabalho de Laxton reflete constantemente sobre as batalhas que Quentin enfrentou no passado. Ele é amado pelos gays novaiorquinos e pode andar como quiser na rua, já que todos se vestem sem maiores pudores. Ser admirado e ouvido é como um paraíso, uma recompensa para uma vida tão intensa e mal compreendida quanto a que teve. Mas Quentin decidiu seguir falar o que sente e este mundo não é para aqueles que promovem a lucidez. Graças a um comentário infeliz sobre a SIDA, Quentin passa a ser odiado pelos gays, mas segue firme tentanto sobreviver com o que a vida lhe dá.
Alguns ecos das regras de Quentin aparecem, lembrando o quanto ele estava de facto a frente do tempo em que vivia.
Agora existem dois pêndulos que refletem a figura de Quentin: o primeiro, que fala sobre negação, o quanto Quentin foi menosprezado e discriminado e o segundo que fala sobre sua dedicação com o aprendizado, com o novo. Quentin toma gosto na arte de promover as suas inspirações e, mesmo doente e inválido, segue em frente numa jornada de autoconhecimento, riscos e desafios constantes até os seus 90 anos, claro, sem deixar o baton de lado.


Em jeito de homenagem, acrescento aqui a fabulosa caracterização do próprio Quentin Crisp, quando interpretou a personagem da Rainha Vitória no filme "Orlando", de Sally Potter (1992).

sábado, 10 de julho de 2010

Desenrascanços

Por vezes usamos a imaginação para, a partir de coisas muito simples, resolvermos algumas carências.
Isto aplica-se muito bem ao nosso povo, ou não fossemos nós conhecidos como "desenrascados"...
Vejamos alguns exemplos

quarta-feira, 7 de julho de 2010

"Criação"

O protagonista deste romance,  um dos mais conhecidos e celebrados de entre a vasta obra de Gore Vidal, (de quem li há pouco o fabuloso”Juliano”), é Ciro Spitama, neto do profeta Zaratustra, que foi educado segundo
a disciplina militar da corte persa. Ainda jovem, recebeu o cargo de embaixador, o que o levou, em sucessivas missões oficiais, a transpor as fronteiras do seu reino, que então se estendia do Mediterrâneo até à India.
Fascinado pelas interrogações fundamentais que se colocam ao género humano (como é que foi criado o Universo? Por que motivo é que o aparecimento do mal é simultâneo ao do bem?), Ciro deslocou-se tanto às regiões para onde Buda se retirara, como ao lugar onde Confúcio costumava pescar, como à própria cidade de Atenas, onde chegou a encontrar-se com Sócrates.
O século V a.C. foi decerto um dos mais férteis períodos da história da Humanidade. Nele viveram Dario e Xerxes, reis da Pérsia, Buda, Confúcio, Heródoto, Anaxógoras, Sócrates e Péricles. E foi nessa mesma época que se concebeu todo um conjunto de ideias espirituais, filosóficas e políticas, sobre o qual assenta ainda em parte o mundo que conhecemos. É esse universo fascinante e só aparentemente um pouco longínquo que Gore Vidal nos descreve nas páginas deste livro, considerado um dos exemplos máximos do romance histórico contemporâneo.

Não é, de forma alguma, um livro fácil de ler, dado as várias teorias filosóficas nele insertas; mas, para mim supriu uma enorme lacuna no fascínio que a História sempre me envolveu. Ajudado por dois excelentes professores de História, que me incutiram com o seu entusiasmo, o gosto pela disciplina, sempre me questionei o porquê de na altura, e no que concerna às chamadas civilizações da Antiguidade, termos dado o natural relevo às civilizações grega e romana, termos focado o essencial do Egipto, da Fenícia, da Mesopotâmia e da Pérsia, e termos geograficamente, parado aí. Porquê o vazio sobre as civilizações desse tempo na Índia e na China (Catai era a sua denominação), bem como nada haver sobre os Maias, Incas ou Aztecas…
Agora fiquei mais elucidado sobre essa história dos vários reinos que constituíam a península indiana e a enorme confusão dos ducados e reinos do Catai; mas aprendi não só os factos políticos, as guerras e as intrigas, pois também fiquei com uma ideia bastante interessante sobre a economia e a sociedade daquelas terras nessa época, e posso dizer que fiquei maravilhado com muito do que aprendi.
E ainda por cima é difícil congregar numa só obra muito da doutrina de Buda, Confúcio e Zaratustra; isto para quem só se habitou nos manuais de estudo da Filosofia a saber algo sobre os clássicos filósofos gregos, nomeadamente Sócrates e Platão.


Como “aperitivo” para quem se atrever a ler esta complexa mas brilhante obra de Gore Vidal, aqui deixo, na visão de Confúcio, quais eram as “quatro coisas feias” da sua teoriasobre o ser humano:  
- Primeira, condenar um homem à morte sem primeiro lhe ensinar o que está certo; esta chama-se selvajaria. Segunda, esperar que uma tarefa esteja pronta numa data determinada, sem primeiro ter dado aviso ao operário; isto é opressão. Terceira, ser vago nas ordens dadas e ao mesmo tempo esperar meticulosidade; isto é ser perseguidor. E última, dar de má vontade a uma pessoa o que é seu de direito; isto é desprezível e mesquinho.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Súplica


Quando eu estiver triste, abraça-me!
Mas como o abraço longínquo é difícil, acaricia-me com palavras...
As saudades por vezes, tornam-se demasiado penosas.


when I need you
I just close my eyes and I'm with you
and all that I so want to give you
It's only a heartbeat away

when I need love
I hold out my hands and I touch love
I never knew there was so much love
keeping me warm night and day

miles and miles of empty space in between us
the telephone can't take the place of your smile
but you know I won't be travelin' forever
it's cold out, but hold out, and do like I do
when I need you
I just close my eyes and I'm with you
and all that I so wanna give you babe
it's only a heartbeat away

it's not easy when the road is your driver
honey that's a heavy load that we bear
but you know I won't be traveling a lifetime
it's cold out but hold out and do like I do
oh, I need you

when I need love
I hold out my hands and I touch love
I never knew there was so much love
keeping me warm night and day

when I need you
I just close my eyes
and you're right here by my side
keeping me warm night and day

I just hold out my hands
I just hold out my hand
and I'm with you darlin'
yes, I'm with you darlin'
all I wanna give you
it's only a heartbeat away



domingo, 4 de julho de 2010

Na despedida...o tango

Agora que a Argentina foi despachada por quatro tanques germânicos e que estamos livres de ver o Maradona nu na mais conhecida zona de Buenos Aires, uma sentida homenagem, na música que é o símbolo da nação argentina, o tango, e numa versão linda desse magnífico grupo que se chama Gotan Project