sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Cinemas de Lisboa - 3

Esta postagem fala ainda de salas de estreia, mas não das mais conhecidas, ou das mais centrais.

Devido a algumas delas terem tido um período de duração curta, e outras terem mesmo sido demolidas (caso dos Alphas), há alguma dificuldade de obter fotos.

Começo por um cinema criado como resposta a outro. Foi o caso do cinema Estúdio
que o Império criou lá no último piso, em 1972,com uma programação cuidada, quase elitista e que tinha a particularidade de quando ainda não havia a projecção, as cortinas laterais abriam-se e ficava aquela ampla janela debruçada para a Alameda? Aliás já o referi na primeira postagem.

Pois o Monumental tinha também o seu estúdio, também no último andar do amplo edifício e que se chamou “Satélite”
e que tanto em programação como em público rivalizava com o Estúdio do Império. Mas foi criado um ano antes, em 1971

 e antes era um salão de chá.

No Campo Grande, havia o “Caleidoscópio”, com uma curiosa decoração externa, num pequeno edifício, perto da Biblioteca Nacional, cuja programação foi de início da responsabilidade do conhecido crítico Lauro António e onde havia um pequeno bar e uma ou duas lojas.
Hoje é uma dependência de uma editora e parece que há planos camarários para transformar o local e outros locais do Campo Grande em espaços úteis quer social, quer culturalmente.

Logo a seguir ao Areeiro, junto às bombas de gasolina que ali estão situadas, abriu um multiplex de três salas, chamado os “Alphas”; o que é curioso é eles terem feito sucessivas obras internas transformando as 3 salas existentes em 5, a mais pequena com apenas 27 lugares e depois uma sexta, com nove lugares apenas, imagine-se! O edifício foi demolido e é hoje um moderno prédio de escritórios.

Encostadinho a um dos lados traseiros da Igreja de Fátima, abriu um cinema pequeno e talvez dos mais feios que Lisboa já teve – o “Berna”.

Ainda resistiu uns anos, mas acabou por se transformar primeiro nos estúdios da então nova TVI
e hoje é uma dependência da Junta de Freguesia.

Numa transversal da Av. Fontes Pereira de Melo, mesmo em frente ao Palácio Sotto Mayor havia outro interessante cinema, o “Mundial”, com uma programação interessante e com duas salas. Deixou de funcionar há anos.

Bem longe, no muito agradável  bairro de Campo de Ourique e perto da igreja do Santo Condestável existiu um cinema de apreciáveis dimensões e de bom porte arquitectónico – o “Europa”.
Nele vi um filme que jamais esquecerei, e que passou desapercebido, chamado “O Ídolo”, com uma Jennifer Jones em fim de carreira, fazendo o papel de uma senhora que se apaixona pelo melhor amigo do filho, um belo actor (Michael Parks, que fez de Adão no filme "A Bíblia" do John Huston): o que me entusiasmou foi que numa cena “quente” do filme é posto a rodar no gira-discos uma belíssima música e o jovem pergunta o nome dessa melodia. Eu que nunca a tinha ouvido fixei o nome também e no dia seguinte estava na Valentim de Carvalho do Chiado a pedir o “Inferno” de Vivaldi. Que não, devia ser engano, e seria talvez o “Inverno” desse compositor que eu quereria – posto o disco a tocar e era esse mesmo; foi-me então explicado que era um dos quatro andamentos de uma composição musical chamada “Quatro Estações” e assim trouxe o long play em vez do 45 r.pm.
Devo a minha imensa paixão por Vivaldi ao cinema Europa, eheheh…Hoje, e depois de ter sido o estúdio das produções televisivas de Carlos Cruz, é um departamento do IPPAR.

E, num beco, muito perto do viaduto ferroviário da Av.da República existiu o “7ª.Arte”
onde vi o célebre “Thelma e Louise”. Fechou como quase todos os outros e hoje é o IMTT, onde vamos fazer fila não para comprar bilhete mas para pagar multas de trânsito; por cima fica a embaixada de Angola.

Há dois outros cinemas de que encontro referência, mas não qualquer foto, embora me recorde vagamente deles e até nem eram longe um do outro: o “Zodíaco”, na Rua Conde Redondo e o “Cine-Bloco”, na Av. Duque de Loulé.

No próximo post falarei dos variados cinemas que funcionaram em centros comerciais e hoje desaparecidos.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Cinemas de Lisboa - 2

Vamos imaginar um passeio por Lisboa, na zona conhecida como “das avenidas novas”, tendo como início a Av.de Roma, lá no cimo onde ela começa, até ao seu término, na Praça de Londres, com pequenos desvios, ali junto ao cruzamento da Av. dos EU, e também junto ao cruzamento onde está a estação Roma-Areeiro.
Da Praça de Londres, descemos a Av. Guerra Junqueiro e depois subimos um pouco e daí a nada estamos na Av. Duque de Ávila, voltando a seguir para a Av. Defensores de Chaves e finalmente atravessando a Av. da República finalizamos na Av.5 de Outubro.
Neste percurso que se faz bem a pé, encontramos nove cinemas desta Lisboa, dos quais só dois ainda exibem filmes…
Mas vamos lá ao percurso.
No início da Av. de Roma, do lado esquerdo aparecia o cinema Alvalade
que desde o seu encerramento há longos anos, escapou ao “martelo” e deu lugar a um edifício moderno de apartamentos de luxo – o Hollywood Residence
mas lá no rés do chão ainda se pode ver cinema no “Cine-City Alvalade”.
Fazendo o tal desvio perto da Av. dos EUA encontrávamos o primeiro cinema multiplex do país, o saudoso Quarteto
onde tantos e bons filmes passaram; de início estranhavam-se aquelas salas pequenas, duas para cima e duas para baixo, mas o facto é que a ideia de Pedro Bandeira Freire
teve um enorme êxito e curiosamente pouco lhe sobreviveu; PBF faleceu em 2008 e o cinema encerrou em 2009. O edifício ainda lá está, numa rua que agora nada tem e aquele anúncio à porta entristece tanta e tanta gente que por ali passou
Continuando pela Av. de Roma chegamos ao viaduto sobre a via férrea e ali à esquerda, logo a seguir ao Teatro Maria Matos, encontrávamos o cinema Vox
o único desta série que sobreviveu e exibe filmes, depois de transformado no King Triplex
com as suas três salas onde a Medeia filmes continua a exibir excelente cinema.
Depois, mesmo na Av. de Roma e também do lado esquerdo havia o cinema Roma
um cinema moderno, simples e que alternava muito bom cinema com algum outro mais comercial.
Hoje é o Fórum Lisboa
onde se vão realizando variadas actividades (durante vários anos ali se exibiu o festival LGBT de Lisboa) e onde funciona em permanência a Assembleia Municipal de Lisboa.
Pertinho, pertinho, mas agora do lado direito da mesma avenida, encontrávamos o cinema Londres
assim chamado devido à proximidade da Praça de Londres. Este cinema com as cadeiras mais confortáveis de todos os cinemas de Lisboa, encerrou há pouco mais de um ano, depois de lhe ter sido cortada a electricidade, por falta de pagamento das respectivas contas. Uma pena!
Finalmente deixamos aquela avenida e logo no início da Av. Guerra Junqueiro (que também não é grande), e imediatamente abaixo da célebre Mexicana, havia o Star
um cinema dos menos conhecidos de Lisboa.
Hoje quem ali passa, no seu lugar encontra uma das lojas da cadeia C&A.
Andamos um bom bocado entramos na Av. Duque de Ávila e quase em frente da antiga Carris havia um curioso e muito popular cinema – o Avis
com os filmes italianos de grande êxito junto do público, como por exemplo os de Gianni Morandi. O curioso é que antes do Avis, tinha havido ali desde 1930 um outro cinema, chamado Trianon e posteriormente  Palácio; o Avis só “apareceu” em 1956…e hoje se ali formos vemos uma normalíssima casa.
Se depois voltarmos para a Av.Defensores de Chaves e seguirmos até ao seu final, mesmo já perto do Campo Pequeno havia um curioso cinema chamado “Estúdio 444”
porque tinha esse número de lugares e era um cinema pequeno, tipo estúdio. Foi inaugurado com um documentário que fez furor, pelo seu conteúdo – “As escravas ainda existem”, que esteve vários meses em cartaz. Aliás mais tarde outro filme documentário teve também muito êxito ali – “Mundo Cão”. Foi um cinema onde se via muito bom cinema alternando com o muito mau. Curiosamente foi lá que se realizou, patrocinado pela Natália Correia (já não há mulheres assim) o primeiro ensaio de um festival de carácter gay e lésbico, com a projecção de meia dúzia de filmes. Hoje é um local abandonado.
Finalmente, depois de um pequeno percurso que atravessa a Av.da República, encontramos na Av. 5 de Outubro o cinema “Nimas”

O que me vem à memória quando falo neste cinema foi a polémica estreia do filme português “As horas de Maria”, boicotado pelas autoridades eclesiásticas e pela população católica…
Foi um cinema que exibiu muito bons filmes, nomeadamente cinema francês e que hoje está transformado no “Espaço Nimas”, uma ideia do filho do produtor Paulo Branco, e que é um polo de intervenção artística, com espectáculos ocasionais, excepcionais e por datas.

 Vi referências a um certo cinema Ávila, situado também na Av. Duque de Ávila, mas não consegui imagem alguma e confesso não me recordar de nenhum cinema com esse nome. Segundo informação adicional dada pelo João Máximo, o cinema existiu mesmo e pode ser visto aqui; mas continuo a não me recordar nada dele o que acho incrível. Se alguém souber da sua exacta localização ou de algum facto ou foto que adiante algo sobre o assunto, agradecia que me a fizesse chegar.
E parece que alguém leu este meu apelo e posso aqui publicar a foto do cinema Ávila, que ficava na referida avenida, em frente ao Hotel Reno; hoje o local é ocupado por uma loja não sei exactamente de quê. Devo um especial agradecimento à amabilidade de Mário Matos, que por mail me fez chegar esta foto, da autoria de Bonez007, no Flickr.


Fora do contexto, mas porque é referida várias vezes no texto, sabiam que a Av. de Roma é a maior do mundo? Começa no Brasil, atravessa os Estados Unidos e termina em Londres. Como diria Fernando Pessa, “e esta hein???”.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Cinemas de Lisboa - 1

Dou hoje início a uma série de postagens sobre os cinemas de Lisboa.
Vai ser uma série bastante completa e bem documentada por fotos, pelo que tem que ser segmentada.
Nesta primeira postagem vou apenas referir os cinemas de estreia que havia na “baixa” da capital, incluindo a Avenida da Liberdade e outros dois grandes cinemas de estreia: um no Saldanha, o Monumental e outro na Alameda, o Império.
Hoje poucas são as salas de cinema que continuam a estrear filmes, estando quase toda a programação na mão das grandes distribuidoras que exibem os seus filmes, por assim dizer quase na totalidade em complexos no interior de grandes superfícies comerciais.
Mas passemos aos cinemas de hoje e em pleno Chiado, ali mesmo ao lado da PIDE, existia e continua a existir o S.Luís, que foi outrora um grande palco para as maiores figuras do Teatro (basta ver as lápides do seu magnífico interior) e depois durante largos anos foi um dos cinemas com melhor programação de Lisboa.
Hoje é um Teatro Municipal, com uma programação variada de teatro, Música, Bailado e outros espectáculos e tem ainda no seu interior uma Companhia de Teatro residente, o Teatro Mário Viegas.
Nos Restauradores, impunha-se o cinema Éden, magnífico edifício da autoria do grande arquitecto Cassiano Branco, com um complicado sistema de entradas e saídas
e que é hoje um hotel.
Quase em frente, havia o Condes
agora transformado no famoso Hard Rock Café.
Logo a seguir, quem vai para a Rua das Portas de S.Antão, o Odéon, especializado em filme populares
e que hoje está transformado num lamentável edifício em ruínas.
E no seu seguimento, mesmo em frente ao Coliseu dos Recreios, está o Politeama, antes um cinema de estreia de filmes de série B, (mas já havia sido Teatro)
e hoje recuperado para as grandes produções musicais (e não só) de Filipe La Féria, no estilo da Broadway, made in Portugal.
A meio da Avenida, dois cinemas de grande nível, um em frente do outro: o S.Jorge, que exibia grandes filmes, da programação cuidada da Rank
e que é hoje propriedade camarária e que regista ao longo de todo o ano grande afluência de público devido aos muitos festivais de cinema ali realizados.
E o Tivoli, uma das mais belas salas de Lisboa, e uma das três que projectava filmes de 70 mm (as outras eram o Monumental e o Império), com uma programação cuidada
e hoje é uma sala com variados espectáculos, com destaque para o Teatro, nomeadamente para as companhias brasileiras que se deslocam até nós.
No Saldanha, uma sala que era uma referência, o Monumental (aliás eram duas, pois havia o cinema e o teatro, onde pontificava o empresário vasco Morgado e a grande Laura Alves). As grandes produções de Hollywood eram geralmente ali projectadas.
Hoje é um edifício moderno de escritórios, com um centro comercial, onde se exibem em várias salas, bom cinema.
Finalmente, na Alameda, outro “monstro” do cinema lisboeta – o Império, também com excelente programação e que foi das primeiras salas em Portugal a ter uma sala alternativa, o Estúdio, com uma programação muito especial e bastante elitista – quase toda a obra de Bergman ali foi exibida
Hoje foi comprado pela IURD, que tem dinheiro para isso e muito mais…

Nesses tempos os bilhetes eram mesmo “bilhetes"
havia programas que os arrumadores ofereciam a troco de uma gorjeta (os lugares eram marcados)
e os jornais traziam assim a programação
De realçar também os enormes painéis que os cinemas de estreia exibiam nas suas fachadas, alguns muito bem feitos.